24 de setembro de 2010

As feridas abertas do Oriente Médio

Há 28 anos, extrema-direita cristã libanesa e Israel assassinavam centenas de palestinos nos campos de Sabra e Chatila.

Dafne Melo
da Redação (Brasil de Fato)

Capa da Revista TIME
Na noite do dia 16 de setembro de 1982, refugiados palestinos dos campos de Sabra e Chatila, localizados na capital libanesa, Beirute, se surpreenderam com a iluminação de sinalizadores de fogo disparados no céu, clareando a noite. Foi uma das primeiras movimentações israelenses para garantir a entrada das forças falangistas (extrema-direita cristã libanesa) nos campos de refugiados. Cercando o local com tanques, controlando a entrada e a saída e iluminando o caminho, Israel dá início a 62 horas de terror contra civis palestinos, causando no mínimo 2 mil mortes, a esmagadora maioria de idosos, crianças e mulheres.

Conhecido como Massacre de Sabra e Chatila, o episódio é considerado um dos mais sangrentos do Oriente Médio nas últimas décadas. “Conversei com uma mulher que perdeu 15 homens da sua família, entre filhos, marido, sobrinho e irmãos. São pessoas que perderam tudo. Perderam a pátria, as terras, a cidadania, o pertencimento a algum lugar. São pessoas que convivem diariamente com a morte, mas que apesar de tudo ainda têm esperança de voltar à Palestina”, afirma a jornalista brasileira, de origem libanesa, Lúcia Issa, que visitou Chatila em maio deste ano e prepara um livro sobre Chatila, com foco nas mulheres.

Ainda que poucas, devido ao boicote israelense na época, as imagens existentes do Massacre, entre vídeos e fotografias, mostram o desespero dos sobreviventes e centenas de corpos empilhados ou enfileirados em ruas estreitas de terra, cercadas por casas simples. O cenário, hoje, pouco mudou. Os cerca de 13 mil refugiados que vivem em Chatila, além do passado de violência, convivem com um presente de miséria e abandono. “O que eu descobri lá é que o que eles pedem é o direito de existir. Os palestinos no Líbano vivem nas piores condições de vida de todo Oriente Médio, inclusive pior do que aqueles que vivem na Faixa de Gaza”. Hoje, há cerca de 425 mil refugiados palestinos no Líbano, divididos em 12 campos. Sabra deixou de ser reconhecido como um campo de refugiados, convertendo-se simplesmente em um bairro pobre ao oeste de Beirute. Leia, a seguir, a entrevista com Lúcia Issa, na qual ela fala sobre o Massacre, a participação de Israel, a impunidade em relação aos culpados e as possibilidades de paz na região.

Brasil de Fato – Qual foi o contexto do Massacre?

Lúcia Issa – O Massacre de Sabra e Chatila talvez seja um dos piores genocídios da história da humanidade. Israel tinha invadido o Líbano, em represália ao assassinato de um embaixador de Israel em Londres. Eles tinham algumas hipóteses, nunca confirmadas, de que um dos palestinos envolvidos nessa morte estaria em Chatila. Dentro do contexto da guerra civil libanesa, havia um grupo da extrema-direita cristã, os falangistas, e Israel faz um acordo com eles para invadir os dois campos de refugiados. Na verdade, Sabra, que não é mais um campo, é hoje um dos bairros mais pobres de Beirute. O agravante é que pouco tempo antes, um enviado dos Estados Unidos, Philip Habib, fez com que Israel e Palestina assinassem um cessar-fogo. No acordo, eles aceitaram retirar todos os membros da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) de Beirute, capital libanesa. Ou seja, a população assassinada era civil, a maioria formada por idosos, mulheres e crianças. Por isso que o que ocorreu ali foi um “massacre”; o que havia ali eram pessoas completamente indefesas. Na época, Ariel Sharon, que era ministro da defesa de Israel, não cumpriu com sua parte do acordo e permitiu que a Falange cristã entrasse no campo. Os israelenses permaneceram nos arredores, controlando entrada e saída, inclusive impedindo que mulheres grávidas e com crianças saíssem. Os responsáveis nunca foram punidos. O Ariel Sharon chegou a ser condenado pelas Nações Unidas, no final dos anos 1990, mas nunca pagou nenhuma pena.

Israel tentou por muito tempo jogar toda a responsabilidade nos falangistas. Hoje está claro que Israel foi, no mínimo, coautor do Massacre, certo?

Com certeza, no mínimo, foi coautor.

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