8 de novembro de 2011

Curtinha sobre a Invasão da USP pela PM


    
Charge de Carlos Latuff
     A sociedade conhece muito pouco o conceito de "universidade", o senso comum, no Brasil, propaga que a pessoa entra na faculdade pra fazer história, por exemplo, e 4 anos depois, sai professor de lá e acabou, camaradas, acreditem isso não é ...universidade, é escola técnica, ou nem isso, universidade é local de questionamento, de produção, difusão e transformação do conhecimento, debate de idéias, nascedouro de insurgências e também de ciência, no sentido mais íntimo da palavra,  para começarmos qualquer conversa sobre a invasão da USP pela PM, este princípio deve ser compreendido minimamente...
    Acredito que a ocupação da reitoria, da maneira como se deu, foi um erro, vejam, não crime, ou imbecilidade, mas um erro fundamentalmente tático, a presença da PM e a forma como os acéfalos atuaram, isso é crime, isso é sacanagem e merece todo o repúdio, defender a PM dentro da USP é o cúmulo da “datenização” do pensar (Datena e pensar, na mesma frase, soa tão estranho não é?)
    Outro brado reacionário é que os caras estavam querendo fumar maconha e só, portanto estão deslegitimadas todas as suas ações posteriores, inclusive a ocupação da reitoria, primeiro, se fosse "só" isso, já seria suficiente, a luta pela legalização da maconha é uma importante luta social, agora, quem "acha" isso, não conhece a USP mesmo, não tem a menor idéia do que esta acontecendo por lá, a precarização na gestão do Reitor Rodas é vergonhosa, assustadora e criminosa, portanto, na minha opinião, apesar do erro tático, a luta é mais que justa, é necessária!

Recomendo a leitura do bom texto do Daniel Girte-Dalmoro sobre o vergonhoso episódio da invasão da USP pela PM.

Vagabundos, baderneiros, maconheiros, irresponsáveis... incompetentes?


Richard Dawkins questiona algures o que não seria da física e da ciência se Newton tivesse se dedicado integralmente a ela, ao invés de ter perdido tempo com discussões estéreis, como as sobre religião. Não lembro se ele faz a mesma pergunta sobre Einstein, Heisenberg e outros físicos e cientistas da primeira metade do século XX. De qualquer forma, chuto uma resposta à sua pergunta: se Newton tivesse se abstido das atividades extra-científicas, assim como os grandes cientistas da primeira metade do século XX, em geral bastante engajados politicamente, teria sido tão medíocre quanto a grande maioria dos pesquisadores da atualidade.
A intelligentsia acadêmica brasileira (para ficar na parte tida por pensante da sociedade) não é nenhum Richard Dawkins, mas bem gostaria de sê-lo: ter panca de inteligente e intelectual, morar na Inglaterra, dando aula para ou tendo como colegas pessoas com boa formação, convivendo com gente “civilizada”, enfim (salvo eventuais hordas bárbaras, como a de agosto). Claro, não precisa ser ateu – apenas pró-ciência e anti-comunista.

Novo protesto na USP, e lá vemos novamente as mesmas manifestações dos bons cientistas da universidade e dos homens de bem de nação, criticando os baderneiros que não querem estudar e atrapalham o bom andamento da ciência tupiniquim.
Afinal, conforme ranqueamentos internacionais, da TopUniversities, para ser mais exato, a USP é a melhor universidade latino-americana, e a 169º do mundo. Não que eu ache que esses rankings sirvam para muita coisa, mas nossa intelligentsia certamente se guia por ela – publicações, prazos, congressos, papérs, bolsas, tudo é feito em função do que os gringos dizem que é bom.
É de se questionar, portanto, onde não estaria a USP, não tivesse todos os incômodos causados por esses alunos que fazem protestos, greves, ocupam prédios.
Bem... talvez estivesse fora do ranking das 200 melhores: dos nove cursos que aparecem entre os 200 melhores, nas diversas áreas, seis – filosofia, sociologia, história, lingüística, ciência política e geografia – são da FFLCH. E se esses alunos estavam fumando maconha e fazendo greve, é de se questionar, então, o que estavam fazendo os demais dos 198 programas de pós da USP. Assistindo tevê, lendo Folha e Veja?
Surpresa? Não deveria ser. A ciência pura pode até existir (não vou entrar nesta questão), mas o cientista puro, certamente não. Não por acaso, quando a Science publicou reportagem sobre a ciência no Brasil, quem ganhou destaque não foi a Fapesp e seus quase 800 milhões de reais – que não mereceu uma mísera linha –, e sim um cientista que faz bastante alarde político – ainda que questão de política científica, mas com uma visão bem menos tacanha de ciência que Brito Cruz, ou demais coronéis da ciência paulista –, Miguel Nicolelis.
Esta ocupação de prédios na USP poderia ser uma ótima oportunidade para esses pesquisadores fazerem uma auto-crítica (proposta ingênua, eu sei): ao invés de desqualificarem o outro, entrarem realmente no debate – não é obrigado a concordar com a atitude, contudo, é radicalmente diferente negar a política, exigindo logo a ordem e a autoridade –, e admitirem: pessoas, mesmo as diferentes, as chatas, as que usam vermelho, as que fedem, eventualmente podem ter mais assuntos e ser mais interessantes do que ratos e átomos.

Retirado do Blog do Nassif: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif 

6 comentários:

  1. essas letras brancas com fundo preto me fazem ver as letras mesmo depois que paro de olhar pra tela!

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  2. Oi Cerveja, a questão é a concretização do estado tecnocrático policialesco dos governos ligados ao opus dei, como o governo do Alckmin.
    Basta ver o que foi a Espanha do Franco a partir dos anos cinquenta, quando a economia espanhola passou a ser dirigida pelo técnicos da santa máfia.
    O buraco é muito mais profundo do qualquer outra coisa, ainda mais com a gritaria de ódio cego que tá rolando na net.

    Saludos!

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  3. ótimo comentário, concordo contigo, e lamento o fiasco da ocupação, pois agora, muito mais a par das coisas, sei que há questões histórico-sociais muito relevantes neste fato que são ocultados pela mídia formadora do senso comum, e aliás acho que um dos grandes erros foi bater (literalmente)de frente com a imprensa, pois o movimento desce a um nivel tal, que chega a remeter aos regimes autoritarios de censura. Uma pena, pois a demoralização do ato é eminente, a tecnização do ensino vai para um caminho sem volta, e o senso comum não vai sacar as coisas...

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  4. bom texto camarada, sou da poli, não concordava com a ocupação, mas a pm, tem que ficar FORA da USP!
    Parabéns

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  5. Oi de novo Sid,
    Nada como ter tocado no Neurônios uma vez na vida.

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